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quinta-feira, 14 de maio de 2015
Tempo
Tudo desapegou. A morte me abandona aos poucos. Porque eu não consigo?! Diga-me! Não acharei resposta aqui.
Ela está sentada do outro lado. Não sei qual era a cor da roupa. Seus olhos estavam me consumindo. Eu estava jogando fogo nos meus sonhos. Não importa o quanto eu queime, o final é sempre falho. Segure-me! O ar está me torturando. Mas os olhos ainda continuam a me consumir. Não sei onde estou. Digo a ela? Digo? Nem eu sei o que dizer. Pegue minha alma. Venda. Ela quem sofre.
Passei algum tempo... não, apenas passei, acho que o tempo não estava ali, olhando-a. Depois voltei a morrer com o tempo.
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sexta-feira, 24 de abril de 2015
Luto
Na sala, todos reunidos. Silêncio é rei. Ainda há a densidade do gosto do falecimento no ar que respiramos.
- Coitado de Lúcio, foi-se tão jovem!
Sim, meu incomparável amigo Lúcio partiu ainda muito jovem, foi trágico. O dia entoava cantigas de cor e de alegria, Lúcio caminhava plácido, embalado pelos sons dos sorrisos e ternuras. Infelicidade da natureza, surgiu-lhe a carência de atravessar a rua - eu o chamei - e, Deus o tenha, um caminhão de mudanças atingiu-no. Não morreu na hora, ainda lutou por algumas semanas, porém padeceu inevitavelmente.
Lúcio era bom homem, embora jovem era bom homem. E era tão forte de corpo quanto de espírito, novo e saudável. Inevitabilidade inefabilíssima, o destino o levou! Ó, sofri! Afinal, fui eu aquele que invocou-no ao outro lado da avenida, transição essa que provocou sua triste morte. Pudera ao menos Lúcio ir por causas naturais, tuberculose que fosse, não recairia-me a culpa! Ó, metanoia, heresia pungente!
- Acalma-te, Lázaro, que a vida ajeitar-se-á. Lúcio se foi em sua hora, mas a sua hora ainda não chegou, homem!
Sim, bem o sei, e não quero debulhar-me em sofrimento, mesmo sendo o luto inevitável (tanto quanto a morte em si). Há de melhorar, a vida minha, e aquela após a morte, para Lúcio, também. A vida é bela, seja antes ou depois do mistério.
Agradeci as condolências, cumprimentei a todos. Abracei Lúcio, beijei sua testa e, ao sair, vi-o sorrindo para mim. Deixei a sala com lágrimas, sorrisos e saudades. Vida longa a nós, e eterna a Lúcio.
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Lázaro Petrarca
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quinta-feira, 12 de março de 2015
O Crepúsculo da Vida
Durma... Durma... Não passa de árvores. Veja a sombra, as folhas balançando, o galho está batendo na janela. O dia já está para renascer, se prepare.
Então acordei. Voltei pra lá, ali pertencia, quero ser livre. Não condenada. Olho no espelho e vejo sombra. Como o galho na janela. Meus cabelos do loiro mudavam para o cinza, acho que sumirão depois de um tempo. Mas para aquele dia, esse dia, eu realmente deveria ter me preparado. Mas como me preparar se hoje é ontem, e o amanhã é agora. Nos preparamos para o inevitável. E quando chegar, tentaremos evitá-lo. Mas nesse dia resolvi sair. Estava frio, o gramado liso, coberto por uma fina camada de neve. O orvalho estava lá, escorregando melancólico, escondendo-se no dia.
Fui até o lago. Estava distante. O sol, ocupado, estava no fundo, nascendo. Então avistei no meio de um pequeno arbusto um gato. Vi que ele tinha seus olhos fixos em mim. Chamei-o. Ele pulou para fora do arbusto, seus pelos pretos brilhavam. Aquele gato não tinha mais vidas, ele vinha do oeste, estava liberto.
Começou a chover. Minha pele queimava. Estava tudo parado, estático. Então o gato foi se aproximando. Pulou por cima de algumas pedras, até entrou na água em certa parte do caminho. E chegou perto de mim. A chuva não parou, estava do mesmo modo. O dia fugiu. Mas eu já não me queimava. O gato estava comigo. Não sei se estava feliz, não sei se eu estava feliz, mas ali eu sobreviveria. Sabia disso, já não estava afundando. Afundando. Já estava no centro do lago. Algum tempo se passou, e eu não pertencia aquele lugar. Será que você pode consertar o caminho? Ele me olhava fixamente. Sentia a angústia em seu olhar, não podia impedir que eu me afogasse. Eu teria que sair do lago sozinha. Então algo me puxou.
E lá estava a dama que eu conheci em um banco eu um dia parecido com este. Ela estava sobre as algas, mas estava molhada. Ela estava molhada. Isso significava muito pra mim. Em minha existência, acho que posso chamar assim, as pessoas não se molhavam. Apenas apareciam secas. Antes de qualquer movimento, percebi que não estava respirando. Mas não me preocupei. Mergulhar aparentemente não faz mal, afundar entre as algas apenas me deixa aparte do mundo. Esta sensação não é tão ruim. Mas eu faço parte do mundo, não? Há mundo ainda para fazermos parte. Então ali poderia me esconder. Não sei se chegará um dia em que eu não vou conseguir sair novamente. Como disse, o amanhã já é agora. Mas tentarei, tentarei até não existir sentido. Tentarei moldar um sentido. Tentarei.
Saí da água, continuava chovendo. O gato me esperava do outro lado. Fui até ele. Já não era o mesmo, envelhecera. E o dia nascia, como o mesmo.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Encontro
Começou a chover. Estávamos nós três, ou talvez eu. Estava encharcada, mas os dois não se molhavam. Fiquei com medo. Estremeci. Corri para além da colina, onde um lago dormia com a chuva. Sentei a sua beira, junto com a grama. Adorava aquele sabor, o cheiro da grama, as gotas caindo no lago, a lua refletindo. As ondas se formavam a cada pedra que eu jogava ali. Se formavam, cresciam, e depois, apenas sumiam. Eu me lembro de cada onda que surgiu, mas só. Só uma onda.
Meu cabelo juntava-se a meus ombros, e então gotas passavam em meu rosto. Não sei o motivo, acabei me acostumando. As lágrimas juntavam-se ao orvalho, já não dava para saber de quem era a tristeza. Minha ou do mundo. Arranquei algumas gramas do chão, fiz uma pequena cova, e enterrei minhas lágrimas ali. Mas o orvalho não sumiu do gramado. Será que os dois já se molharam? Não sei se vão me aceitar... não sei se quero.
A lua já estava tocando o lago quando aconteceu. Não me pergunte o tempo, por favor. Ondas surgiram lá, perto do meio do lago, e eu a vi. Eu mesma, perto da lua, sem lágrimas no rosto, sem o meu cabelo molhado, me convidando. Não hesitei. Mergulhei no lago mesmo ainda estando sentada. Era estranho ali, não sei se estava sonhando, mas me senti em casa. Respirava em baixo da água, e pude andar no fundo do lago. Olhei para a lua, ela parecia mais bonita daqui. Conseguia vê-la por dentro. Ela nunca esteve fora da água. As algas aqui não choram como a grama. Mas senti o mesmo peso nelas. Andei em meio as algas, o escuro misturado com o azul resplandecente da lua deixava-se vislumbrar em meus olhos. Quando achei um local um pouco mais aberto, fiquei imóvel. Sentei, deitei, meus cabelos cobriam meu rosto, ali adormeci. Acordei muito depois, a lua ainda estava lá. Ali, dentro da água, também não me achei. No chão se encontravam algumas pedras brancas, as algas se soltavam e flutuavam, quase como livres. Sumiam na escuridão.
Era aquele o meu mundo? Solitário e agitado, frio e quente, mas meu. A superfície voltou a ficar trêmula. O céu voltara a chorar. Não queria abandonar aquele local, estar molhada ali não fazia diferença. Mas precisava sair, tinha que ver como os dois estavam. Sabia que eles não gostariam daqui, mas se molhassem... espero que não aconteça. Voltei pelo mesmo caminho. Ali estava eu novamente, sentada a beira do lago. Lágrimas em punho. O cheiro melancólico da grama voltou aos meus sentidos. Subi a colina e voltei para os dois. Não tinham se molhado. Não me entendiam. Não os culpava por isso. Ainda conversavam sobre o mesmo assunto que eu não entendia.
Depois, aprendi a voltar para o lago. Sempre que o fazia conseguia entrar em meu próprio nada. Mas sempre me obrigava a voltar. Acabei aceitando que não tem como viver lá. Pelo menos não tenho certeza. Mas o lago sempre me convidava, assim como eu mesma.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Tempo
Tudo desapegou. A morte me abandona aos poucos. Porque eu não consigo?! Diga-me! Não acharei resposta aqui.
Ela está sentada do outro lado. Não sei qual era a cor da roupa. Seus olhos estavam me consumindo. Eu estava jogando fogo nos meus sonhos. Não importa o quanto eu queime, o final é sempre falho. Segure-me! O ar está me torturando. Mas os olhos ainda continuam a me consumir. Não sei onde estou. Digo a ela? Digo? Nem eu sei o que dizer. Pegue minha alma. Venda. Ela quem sofre.
Passei algum tempo... não, apenas passei, acho que o tempo não estava ali, olhando-a. Depois voltei a morrer com o tempo.
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D.O. Arghus
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Sobre viver
Subiu os degraus do restaurante e parou à porta. Tão Grande e forte, o homem impedia que os raios de Sol entrassem, pois seu tronco duro consumia a entrada.Observei-o. Usava uma camisa manga curta azul desbotada e uma calça de um bege sujo. Tinha os punhos cerrados no tamanho de talvez dois melões.
Respirou fundo e limpou o suor do queixo com as costas da mão. O sujeito sem nome tinha a face escondida por um boné. O negror de sua pele lhe dava um ar de fortalecido pela vida. Mantinha os punhos fechados como se estivesse pronto. Deu mais uma olhada ao seu redor com cautela, comigo contava-se quatro no estabelecimento. Pisou em direção à sua mesa, três ao lado da minha. Passou os dedos sobre a madeira gasta e procurou o garçom ao seu redor. Encontraram-se. Olharam-se como cúmplices, mas palavras não trocaram. Sentou-se. Percebi o quanto ele pertencia ao lugar. Espichou as pernas e deu um suspiro. Em pouco tempo um prato foi largado sobre a mesa. Cheio, arroz, feijão e um ou dois ovos sobre esses. Senti-o salivar.
Tirou o boné e pousou-o à frente, uniu as mãos ásperas de labor e fechou os olhos. Não havia nada no recinto. Apenas garfos cortando o murmúrio lento. O murmúrio do incrível. Nada fora aquele momento. Passado certo tempo, o negro de cenhos constantemente franzidos abriu os olhos. Olhou seu prato e respirou fundo. Em seguida olhou para algo além do teto. Voltou-se para a mesa. Pegou seu talher. Saciou seu vazio.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Sem Graça à Oeste
Assim que o nada começou a fazer sentido, alguns dizem que foi logo quando o sol dormiu, ela abriu os olhos. Os cabelos louros já não estavam como antes, um pouco mais apagado, algo para o branco. Mas vivos, como ela pensava. Estava tudo escuro, ela estava presa. Não conseguia nem se virar direito, e estava em meio a um veludo. Precisou de uma força imensurável para empurrar a porta, como pensava. E encontrou apenas terra. Cavou, cavou, foi mais fundo, e chegou a superfície. Estava em seu túmulo. Mármore, frio, flores murchas em volta de sua coroa.
Ela ficou várias horas, dias talvez, olhando sua cova. Ainda estava lá, deitada, seus cabelos cobrindo todo o ombro. Como era possível? Quem explicaria tal fato? Depois de algum tempo, aparentemente já desistira de contar, começou a chover. As gotas molharam a garota inteira, mas a que estava deitada, ela mesma, não se molhou. Ali, naquele cemitério, a garota ficou pensando em motivos para descer novamente até o caixão e descobrir o que estava acontecendo. E desceu. Quando seus pés tocaram o caixão, lentamente, ela estremeceu, um frio até então desconhecido domou seu coração. Finalmente entendera, aquela era sua alma, não mais a tinha. Como viver sem alma? Como? Lembrou-se então do seu passado, das pessoas com quem poderia contar, das pessoas que poderiam ajudá-la. Deixou então sua alma deitada, e foi em busca de ajuda. Deixou para trás aquelas flores, e o poste de luz que estava aceso ao lado de seu memorial. Memorial... também não sei o motivo.
Na rua não havia ninguém. Logicamente, quem sairia aquela hora. A lua brilhava tanto. Como sofre! Em toda sua existência, acho que não foi grande coisa, ninguém percebeu seu sofrimento. Mas o brilho nunca foi de alegria. Foi para se esconder. Casais olham para ela, famílias, mães, um grupo de amigos, e ela sempre a mesma. Mas a garota via. Conseguia enxergar sua dor.
Foi até sua casa. Todas as luzes apagadas. Como pensava, não passava ali por muito tempo. Decidiu então ir até sua família, quem sabe eles teriam alguma resposta. Encontrou todos acordados no meio da madrugada, comendo. Disseram que estavam almoçando, e como estava calor o dia. A menina não entendia nada. Depois de conversar sobre a vida de todos, vida, como diziam, ela sentiu que estava na hora de pedir ajuda, contar sobre sua alma, como estava aprisionada. Mas todo momento que ela tentava contar o fato, uma estaca era enfiada no seu peito e ficava rasgando. Pelo menos foi assim que ela falou. A dor da estaca era tão forte, e ela sabia que caso conseguisse falar sobre sua alma, para qualquer pessoa, esta poderia sentir a mesma dor. "Não quero isto para ninguém", ela me disse uma vez.
Pela janela conseguiu observar o sol tentar desabrochar no horizonte. Sabia que estava na hora, não poderia deixar o dia chegar e ela continuar ali sem sua alma. Desculpou-se com todos da casa, todos disseram que não foi nada (sem entender nada), e ela saiu correndo. Correu, lágrimas caiam, rolavam por seu rosto, respingavam no cabelo e tocavam o chão como purificação... ou o contrário. Chegou no cemitério, o sol quase impondo seu poder. Entrou na sua cova e ficou junto com sua alma. Ali dormiu. E foi quando nós conversamos. Um mundo paralelo, não sei. Não preciso explicar aqui também, quem sabe em outro momento. Era apenas neve, alguns arbustos formando uma circunferência, uma fogueira centralizada, e nós dois conversando. Estava quente e frio ao mesmo tempo, não sei se dentro ou fora. E todos os dias foram assim. Noites, na verdade. Quando o sol começava a aparecer aqui, ela corria para o outro mundo. Acordava no seu túmulo, e tudo se repetia.
Depois de muito tempo nós concordamos em guardar todo o sofrimento de nossas almas conosco, e se possível, mostrar nosso corpo para as pessoas, apenas ele. Foi assim que vivemos, assim que sobrevivemos. Isso, melhor, sobrevivemos.
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D.O. Arghus
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Retratos e Memórias
Os sinos ecoavam, meu quarto estava surdo. A Igreja no final da rua não casava, continuava a ecoar o sino... mas minha janela está sendo tocada por neve agora, quase coberta. Sem levantar da minha cama, já estava cansada de observar o teto, virei meu rosto. Incontáveis fios amarelos tamparam minha visão, meu cabelo, acho [...] Não queria retirar ele da minha vista, fiquei inerte, até o crepúsculo engolir o dia. Já está na hora? Retirei aqueles fios do meu rosto. Minha cama? Grande e vazia, parecia que a neve ali repousava. Meu quarto, com todas aquelas memórias, encontrava-se só, eu já não contava. Não contava?! Mas eu sou a menina. No fundo, dentro do meu próprio nebuloso vale, eu sabia. Não contava pois eu não era passageira, o quarto nunca me pertenceu, nem eu a ele. Não há como nos separar.
Enquanto estava deitada em meu mundo, acho que essa é a palavra, prestava atenção nos barulhos da rua. Não quero mais ouvir o sino. Creio que seja uma mãe com seu filho. Tantas trocas de afeto, mas está muito frio. O que faz esses dois lá fora? Quem se importa... acho que pensavam assim. Risos, acho que era, duas pessoas brincando lá fora. Provavelmente bolas de neve, como uma guerra para aliviar o mundo. Ou talvez um boneco, sabe, daqueles com nariz de cenoura, moldá-lo como desejar, desfazer quando quiser, ou deixar o inverno passar, o tempo levará. Um carro também passou, mas era só um carro.
Depois de algumas escolhas, passou pouco tempo, sentei na cama. Esqueci que a janela estava coberta de neve, mas olhei para ela. Ouvi passos na escada de casa. Fiquei esperando os passos acabarem, mas não acabou.
Chegou um momento em que eu deitaria novamente ou sairia por aquela porta. Não defini como uma escolha certa, mas atravessei a porta. A escada me encarava. Vazia, com um espelho no final. Fui até o espelho, fiquei ali por um período. A imagem, minha imagem, pele pálida, olho azul (é o que todos dizem), e... não sei. Atrás apenas a escada e a porta do meu quarto aberta, como um convite. Fechei meus olhos rapidamente. Quando abri, para minha surpresa, juro, eu ainda estava lá.
Resolvi ir até a rua, ver aquelas pessoas. Foi complicado abrir a porta, a neve não deixava. Tive que fazer muita força para conseguir, e no final consegui. Se foi bom ou ruim é com você. No exato momento em que abri, as vozes pararam. Mas o sino continuava. Primeiramente pensei que estavam calados, mas depois percebi que nunca houve alguém.
E a Igreja com seu sino? Vou pará-lo. Corri, o crepúsculo já estava sendo engolido. Quase perto da esquina da Igreja, tropecei em uma pedra e caí. Já consegui ver ali do chão. Não era uma Igreja. Era um velho balançando um sino. Fui até ele e fiz algumas perguntas. Mas ele não fez nada além de tocar o maldito sino. Desculpe-me a palavra. Desisto daquele senhor? Não fiz, apenas o esqueci. Mas voltei a visitá-lo. Retornei até o meu quarto, deitei novamente. Olhei para o lado, como sempre não havia ninguém. Dormi.
Os sinos ecoavam, eu estava surda.
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D.O. Arghus
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domingo, 28 de setembro de 2014
Pesadelo
Arghus andava
pela cidade. Na rua viu crianças brincando, cachorros latindo, uma mãe vivendo
com seu filho. Vivendo! Como isto é possível? Então foi até a moça.
- Senhora, o que está fazendo?
- Estou com o meu filho... Não consegue enxergar?
Ele não
entendeu, ele enxergava! Aquela moça... ela enxergava? Arghus não sabia.
Em meio a
toda aquela felicidade, o jovem Arghus, com toda a sua velhice, saiu correndo.
Correu até o vale que parecia mais medonho, para ali viver. Quando chegou lá
descobriu que havia pássaros, todos cantando e montando seus ninhos. Mais a
frente existia um acampamento, para as pessoas passarem as suas férias. Arghus
não aguentava mais, iria enlouquecer. Esfaqueou seu peito. Enquanto sangrava,
ouviu seu alarme. Em um suspiro de vida, acordou em sua cama. Ouviu seu mundo. Sentiu
o cheiro da fumaça, ouviu a buzina dos carros, e lá longe, ecoando em seu
quarto, o choro de uma criança, que não queria nascer.
“O que está acontecendo?”,
pensou. O mundo está errado para ele, ou ele estava errado para o mundo. Então
foi ver seu amigo, Augusto. Quando chegou na casa, ele já não estava. O pobre
Arghus ficou louco, o que havia acontecido com ele? Então viu um bilhete na
porta, e foi ver o que estava escrito.
“Tudo passa...
fique tranquilo. Tudo passa, a vida é o sentido da vida. Espere a maré
diminuir, o oceano vai ficar calmo.”
O que ele
queria com aquilo? Ficou louco. O mundo está um caos, as pessoas pensam que
vivem. Tentam respirar mais do que as outras. Como ele pode dizer isto? Insano.
Arghus, após
ficar sentado ali, sem nada a oferecer, percebeu que aquele lugar já estava
falido. As pessoas, condenadas. Consertar apenas a si não adiantaria. “Prefiro
ser nada, o nada, a ser algo aqui.” Com isto, Arghus se matou. E morreu?
Coitado, não pode morrer. Quando sangrava, ouviu os pássaros cantarem. Pulou do
chão, sentiu o ar fresco, estava no vale, novamente.
-Acorde, acorde! - Era seu amigo, Augusto.
-O que faz aqui?
-Eu vivo, como todos.
Então viu um crachá
no peito de Augusto. Como se pertencesse a algum escritório. Arghus perguntou o
que era aquilo, e seu amigo explicou que era onde todos trabalhavam. Não havia
escalas, não existia, além do chefe, alguém superior a eles. Augusto não
conseguiu contar como o chefe era, pois nunca o viu. Mas sabia de vários boatos
sobre ele.
Tudo parecia
perfeito, viveria naquele mundo. Pessoas compreensivas, sentimento uno, a moral
já estabelecida. E assim os anos passaram. Arghus casou, criou dois filhos, que
ficaram parecidos com o pai, e ficou velho. Certo dia, após o inverno, Arghus
sentiu uma dor imensa no seu peito. Ligou para o seu chefe, o mesmo de Augusto
e de todos, mas ele não atendeu. Viu que ali seria seu fim. Como um corte do
coração, Arghus morreu. E acordou. Estava na porta de seu amigo Augusto. O
cheiro já conhecido, sabia onde estava. E sabia que não sabia mais também. Olhou
para a rua... decidido a morrer, viu um gato ser atropelado, e pensar que ali
morreu.
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