quarta-feira, 4 de março de 2015

Lágrimas do Céu



E as portas do céu se abriram
Meu chão estava muito pesado
As paredes estavam cheias de mentiras
A chuva já não caia sobre nossas cabeças

Desceu montada em seu próprio medo
A terra já não pertence aos anjos
Mas ela se atreve a pousar
Quebrar suas asas para viver entre humanos

A dor escorre de seus olhos
Não entendem seu ser, 
Pobre anjo, tem alma

Sua âncora está solta, livre
Mas o céu a chama
Chá não apaga 
terça-feira, 3 de março de 2015

Chá


Chama perpétua,
Sou um fingidor.

Chama traiçoeira.
Estou cansado,
Não há chama que não apaga.

Pois então, não mais a chamo,
Chama jamais,
Por mais, agora é Chá.

Tempo que passa,
Chá nunca apaga.
domingo, 1 de março de 2015

Expedição - Primeira


     A vida que vivemos é sem significado. Não a vida em si, maravilhosa, completa, cheirosa e todo o resto dos adjetivos empíricos, bons ou não tanto. Essa não, mas esta vida, que vivemos, em suma é uma grande bolota de elementos escritos, que deverão ser lidos, reescritos, talvez editados, quem sabe (seria surpreendente!) aprendidos. Enfim: inutilidade.

     Quero eu escutar (e viver o escutado, tornando tal feito homérico) os conselhos do saudoso professor J.R.R. Tolkien, linguista e pai de boa parte da Fantasia presente nas nossas deliciosas estórias de hoje em dia: "Se mais pessoas dessem valor a comida, bebida e música ao invés do ouro, o mundo seria um lugar mais alegre". Perfeito. Incisivo. Hedonista? Bom, tudo na sua devida medida, ainda que essa por vezes seja um exagero por si só, dou-me o direito de dizer, para o inferno com os mornos. E veja bem, quem disse isso foi... bom, foi "Deus". Se não ele, Sua Palavra disse.

     Mas voltando ao tédio do Mundo Escrito dos dias de hoje: se lendo eu me entendo, te entendo e nos entendemos, escrever me liberta, te liberta, é fato, porém nos aprisiona ao doentio e fascinante universo das palavras, lidas e escritas. É uma prisão confortável, de mimos e deleites, reconheço, contudo nos limita tal qual a ignorância.

     Há outras formas indubitáveis de se mudar. De se fazer. Outros jeitos de ser! A mais prática e usual é pela leitura-escrita, mas... há vida após a palavra, isso eu garanto. Afinal, quem inventou tudo isso que coloco agora diante de seus vorazes olhos foi nada mais que um comerciante analfabeto e seus companheiros fenícios. De uma forma ou de outra, no caso, em forma de palavras, fica aqui um convite aos interessados e um desafio aos outros para responder a Pergunta Fundamental - a qual cada um escolhe a sua, no tempo em que quiser. Acompanhem-me em estas peculiares Expedições, fazendo um uso surdo do inefável "mundo das palavras", para, com sorte, um dia talvez nos tornarmos um tanto mais... sábios. Um brinde à sabedoria, e um à bestialidade. Bebamos direto da fonte a eterna e inesgotável benção torta chamada Humanidade!
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ode ao Inexorável


Corre o tempo, passa a chuva
Voam nuvens sobre a Lua,
Sobre o tempo e o Tempo falam
E nunca, nunca, nunca param, pa...

Palavra, lavra, larva, verme,
Lindo e leve e livre verme!
Sobe o tempo e o Tempo voa
E nunca, nunca, parará...

Para
Ufa... nismo
Pá...
Rapa o fundo do Abismo

Para quem?
Não para ninguém.
E o Tempo passou
E a chuva pa...
Sou.
sábado, 21 de fevereiro de 2015

Apenas Dois Goles


Cicatrizes em um chão adormecido
As vinhas já não entorpecem o caminho
Gotas pela trilha bloqueiam os sentidos
A estrela no topo, apontando o destino

Pelas matas e rios andaste longe
Foi parar onde nenhum homem pisou
E para que? Ele viu? 
Apenas um verme comum 

Trouxe as amoras da colheita 
Não teve muito desta vez, 
Apenas uma dúzia, dois copos 
Mas esta está saborosa 

Eu deveria colher as minhas
Já estão apodrecendo, 
Mas surgem novamente, 
Não importa o meu solo.

Então manterei.
Assim como as vinhas que fazem meu dia
Passar para minha adega, e esperar
Esperar outro ser, outra noite, outro vinho

Deste cálice não tomarei mais
Ela aqui deslizou seus lábios
Mas quem é ela? Dramático 
Despiu-se, observou, não colocou novamente 

Meu senhor morreu, 
Cuidarei das vinhas, elas agora me pertencem 
Sim, tenho propriedade 
Não sou inútil 

Tomei mais um gole
Ela parava de chorar
Olhei nos seus olhos
Me via atrás deles

Mas era reflexo, eu não pertencia aquele lugar
Fugi, de mim mesmo, para longe
Um lugar onde eu não me encontraria
Mas ela me achou, me reencontrei

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Voo


Por vezes me pergunto se estou são,
Salvo melhor juízo,
Final trágico. Inferno ou Paraíso?
Talvez os dois. Talvez... não.

E a nossa velha e vã filosofia
E a nossa infância, farta de alegria,
Com maestria é carregada pelo tempo

Funde-se o grafite ao papel
A tinta limpa o branco do Nada,
Pare palavras paradas, imóveis...
Palavras porém inexoráveis!

E a nossa velha e vasta alegria
Com sua elegância bestial, pia,
Como aves alvas voando ao vento
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Elevação


Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito além do horizonte, 
Para além dos confins dos tetos estrelados, 

Meu espírito, vais, com toda agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda, 
Levado por indizível voluptuosidade.

Bem longe deves voar destes miasmas tão baços; 
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor, 
O claro fogo que enche os límpidos espaços. 

E por trás do pesar e dos tédios terrenos 
Que gravam de seu peso a existência dolorosa, 
Feliz este que pode de asa vigorosa 
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos! 

Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz 
Rumo ao céu da manhã em vôo ascensional, 
Que plana sobre a vida a entender afinal 
A linguagem da flor e da matéria sem voz!

Élévation 


Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées, 
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers, 
Par-delà le soleil, par-delà les éthers, 
Par-delà les confins des sphères étoilées, 

Mon esprit, tu te meus avec agilité, 
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l’onde, 
Tu sillonnes gaîment l’immensité profonde 
Avec une indicible et mâle volupté. 

Envole-moi bien loin de ces miasmes morbides, 
Va te purifier dans l’air supérieur, 
Et bois, comme une pure et divine liqueir, 
Le feu clair qui remplit les espaces limpides. 

Derrière les ennuis et les vastes chagrins 
Qui chargent de leur poids l’existence brumeuse, 
Heureux celui qui peut d’une aile vigoureuse 
S’enlacer vers les champs lumineux et sereins!

Celui dont les pensers, comme des alouettes, 
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
– Qui plane sur la vie et comprend sans effort
Le langage des fleus et des choses muettes!

                                            Charles Baudelaire 
terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Luna


Dê-me motivos para o sol nascer
Quero vê-lo entre os pinheiros
Sair do oceano, escapar
Fugir, viajar, começar a viver 

A lua me domina 
Ela está entre os pinheiros 
Uma névoa em sua frente
Ela também não se mostra

Segura-me, minha querida Luna
Estou na grama, molhado
Minha Luna, porque choras? 
Eu estou aqui, também te seguro

O vento congela a minha pele
Mas não posso deixá-la no céu
Sozinha, só com seu sentir
Sozinha, sem poder fugir 

Minha Luna, sempre esteve aqui
Minha Luna, talvez a manhã,
Não irá surgir
domingo, 11 de janeiro de 2015

Teofobia


Meu deus é grande.
Maior que o seu.
Mas maior é minha fé...bre

Minha vida é de meu deus
Dou, por ele, meu sangue,
E o de todos aqueles que se opuserem a mim

Ah... apenas um escrito fugaz
Para tantas pessoas de mal.
Num apelo intercelestial, peço paz, e pronto.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Manhã


A morte está lá fora
Será que apenas eu vejo? 
Corpos no chão, almas dispersas 
O sorriso levado aos ventos 

Apenas um segundo 
O sol se pondo 
O horizonte no mesmo lugar 
Quando vou alcançá-lo? 

A maré desceu 
A lua subiu ao trono 
Lágrimas por todo o gramado 
Ninguém colheu 

Ela aparece a todo instante 
Viva... não posso tocá-la 
Nada passou 
Meu coração ainda não bateu 

Vidros no chão, quebrados 
Todo o sangue em pedaços 
O chão molhado com o tempo 
Tudo, então, espelhado